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ALESSANDRA LELES ROCHA
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A quem interessa o negacionismo?
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA



A quem interessa o negacionismo? Aos autoritários? Aos tiranos? Aos egocêntricos? Aos vaidosos? Talvez, a eles e muitos mais que silenciosamente, ou discretamente, referendam tal ideia. Negar virou prática, vício desse tempo. Jeitinho básico de resolver os eventuais incômodos que o cotidiano impõe. Então, tudo é pretexto, desculpa, para negar. Negar a ciência. Negar a história. Negar os fatos. Negar as falas. Negar as ações. Negar...
Como se isso fosse lhes trazer a construção de um mundo idealizado segundo seus próprios princípios e convicções. Pena, que não é bem assim! Acima de quaisquer vontades e quereres há conjunturas que se movimentam a revelia; haja vista, a Pandemia que não me deixa mentir. De modo que essa história de negar está muito atrelada ao controle, à dominação, a imposição; mas, no fundo, ela só faz ser inócua.
Já dizia o célebre colunista Ibrahim Sued, “os cães ladram e a caravana passa”. Pois é. Paralisados pela força do não que vocifera de suas bocas, o resto do mundo segue o baile, se inventa, se reinventa, se descobre, se transforma; enquanto, deixa marcas para contar a história. Sobre flores, espinhos, canhões, sorrisos, lágrimas... os registros vão sendo tecidos e guardados para as lições de hoje e amanhã; afinal, “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” (Lavoisier, 1785).
Então, por que negar? Birra? Mimimi? Arrogância? Prepotência? Mera arbitrariedade voluntária? Começa negando uma coisinha aqui, outra ali, e de repente se perde em um mar de negações, porque basta algo não estar de acordo para se tornar objeto do não. Não quero. Não gosto. Não acredito. Não aceito. Não admito. Não permito. Não...
O que eles não percebem é que o negacionismo não esconde, não apaga, não desfaz o objeto da negação; ao contrário, só reafirma e enaltece a sua presença. É um tipo de propaganda às avessas. A negação só fomenta curiosidade a respeito. Só amplia o direito de vez e voz do que é negado. Sem contar, que pode causar situações constrangedoras como a de Pedro que negou Cristo por três vezes e foi arrebatado por um arrependimento profundo. ...
Onde fica, então, o direito ao contraditório? Ao debate? A discussão-argumentativa? Se eles negam as ideias, as palavras, as opiniões, esperar o quê, então. Quando penso a respeito disso, logo me vem à mente a personagem da Rainha de Copas, do livro “Alice no País das Maravilhas”, do autor britânico Lewis Carroll. Particularmente, eu a considero a expressão maior do negacionismo, com o seu célebre “Cortem-lhes à cabeça!”. É; se isso sai da ficção para ganhar as ruas muita gente, em pleno século XXI, perderia a oportunidade de usar um chapéu.
E para quem pensa que residem nesses aspectos o pior do negacionismo, afirmo que estão enganados. O pior do negacionismo está na conivência e acobertamento das maldades, perversidades e atrocidades humanas. Ele é hábil em construir uma densa cortina de fumaça para encobri-las e dificultar que os mais desavisados possam percebê-las.
Não é à toa que o negacionismo bate de frente com as estatísticas e tenta com toda a veemência possível distorcer os fatos; sempre a seu favor é claro. Assim, o negacionismo reina soberano nas sombras, por onde se espalha sorrateiramente pelos discursos maciços das redes sociais. Ele parte da percepção desfocada, dos equívocos premeditados, das inverdades construídas para um dado fim.
Como se vê, o negacionismo não é uma mera questão de ponto de vista. É uma imposição que lida diretamente com a vida e a morte em todas as suas nuances e significâncias. Por trás da marcha fúnebre que tende a superar mais de 100 mil óbitos pela COVID-19 no país, por exemplo, o negacionismo está presente. Ele é, portanto, uma manifestação do egoísmo, da indiferença, da invisibilização do “outro”. Ele é, sobretudo, uma afronta direta aos princípios democráticos, ao respeito às liberdades, aos tempos de paz.

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