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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Tantos motivos...
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA



Tantos motivos para vertermos a tristeza em gotas de água e sal. Tantos motivos para enfrentar a vida com mais seriedade e equilíbrio. Tantos motivos... que a Pandemia do COVID-19 lançou luz a respeito. No entanto, para todos eles seria fundamental que dispuséssemos de uma consciência ativa e amadurecida sobre o que é cidadania, a fim de nos posicionarmos adequadamente diante dos desafios cotidianos e seus desdobramentos.

Cada um que nasce já é um cidadão por excelência, já tem assegurados os seus direitos e deveres dentro do Estado; de modo que a prática dessa cidadania é que irá constituir a sua identidade nacional. Portanto, ela significa bem mais do que direito ao voto. Bem mais do que torcer pela seleção brasileira de futebol. Bem mais do que vestir verde e amarelo em ocasiões festivas cívicas. Bem mais do que polarizações político-ideológicas. Bem mais...

O exercício da cidadania implica na junção coerente e coesa entre discurso e ação. O que significa que cada cidadão carrega em si a responsabilidade que lhe cabe na cidadania individual; mas, também, do resultado coletivo. Talvez, a história colonialista brasileira não nos tenha ajudado nesse processo, dada a velha herança paternalista fundamentada pela monarquia, que aqui permaneceu por um bom tempo, e depois prosseguiu nos caminhos dos moldes republicanos.

É do ser humano gostar bem mais dos direitos do que dos deveres; mas, sem o equilíbrio entre eles não há cidadania que prospere, não há mudanças sociais que sejam possíveis, não há problemas que tenham fim. E justamente pela resistência que reside nesse desequilíbrio é que o país arrasta suas correntes, suas mazelas cronificadas ao longo dos seus séculos de existência. Na passividade da espera, da submissão,... que a cidadania brasileira tem se mantido frágil e incipiente, fomentando, de certo modo, uma variedade indizível de interpretações equivocadas a seu respeito.

Mas, eis que o mundo virou de cabeça para baixo e se pôs em curso em um realinhamento profundo e filosófico sobre si mesmo. Sim, esse é o entendimento que se inscreve nas entrelinhas dessa Pandemia. Comportamentos, valores, princípios, planejamentos, condutas,... precisam ser ressignificados para atender as demandas que emergem dessa nova conjuntura socioambiental. O que pede, então, uma consistente postura cidadã.

Cada ação do novo vírus entre nós impôs milhões de desdobramentos a serem mensurados, analisados e resolvidos. Os milhões de mortos abrem o olhar além de si mesmos sobre todos aqueles direta ou indiretamente a eles relacionados. Os aparentemente resilientes à doença e/ou seus efeitos abrem o olhar atento para o que ainda possa lhes acontecer no campo biológico e vital. Os sequelados pelo vírus abrem o olhar para a infinitude de consequências impostas pelo desconhecido. Os milhões de desempregados e desassistidos socialmente abrem o olhar para a fragilidade social diante da brutalidade e perversidade que os impactos socioeconômicos podem atingir as economias mundiais. Enfim...

A cidadania nos mostra, então, que estamos a serviço do mundo e não o contrário. Temos responsabilidades reais e imediatas, ainda que possamos optar por negligenciá-las, posterga-las ou invisibilizá-las; mas, isso não muda os fatos. Aliás, porque em pleno olho desse furacão, denominado COVID-19, a própria ciência enfrenta os desafios especulativos e as incertezas que pairam sobre a duração desse processo. Por mais que se tenha passado alguns meses, a humanidade está no princípio dessa história e precisa de serenidade para cumprir a travessia. Mesmo que na melhor das hipóteses surja uma vacina que atenda as especificações e demandas da doença, a realidade atual aponta que outras enfermidades vêm sendo negligenciadas pela população e representam riscos epidêmicos graves também, em face do não cumprimento ao calendário vacinal instituído para elas.

Os movimentos Negacionistas que se instalam entre diversos grupos sociais caracterizam, sem sombra de dúvida, um perfil anticidadão. Na medida em que rompem arbitrária e irresponsavelmente com a contrapartida dos seus deveres sociais, eles desestabilizam a ordem e institucionalizam o caos. Daí as aglomerações, o abandono do uso de máscaras, a desqualificação do conhecimento científico, as Fake News etc. Se o entendimento de que o exercício cidadão é fundamental para o enfrentamento dessa crise sem precedentes não prosperar rapidamente as consequências tendem a ser piores do que a própria doença.

Não é sem razão que a própria Ciência trouxe a luz recentemente o entendimento de que a “COVID-19 não é pandemia, mas sindemia”, o que significa entendê-la dentro da perspectiva de que “existe o Sars-CoV-2 (o vírus que causa a doença COVID-19) e, por outro, uma série de doenças não transmissíveis. E esses dois elementos interagem em um contexto social e ambiental caracterizado por profunda desigualdade social” 1. Portanto, é dentro desse contexto que a cidadania se torna tão imprescindível para viabilizar de maneira sustentada e satisfatória o trato com as condições subjacentes ao processo.

Sendo assim, tomemos como estímulo de reflexão as seguintes palavras de José Saramago, “Ninguém assume suas responsabilidades, muito menos os governos, porque não sabem, porque não podem, porque não querem ou porque isso não lhes é permitido por aqueles que realmente governam o mundo: as grandes empresas multinacionais, pluricontinentais, que detêm todo o poder. Não podemos esperar que os governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram ao longo dos cinquenta anos que hoje comemoramos. Que nós mesmos façamos com que nossa voz seja ouvida, com a mesma ênfase com que até o momento temos exigido o respeito aos direitos humanos. Tornemo-nos responsáveis por nossas obrigações como cidadãos, sejamos cidadãos comuns da palavra, e assim o mundo talvez poderia ficar um pouquinho melhor. Assumamos as responsabilidades que nos cabem” 2.


1 https://cee.fiocruz.br/?q=node/1264

2 “La sociedad civil, voz veemente para mejorar el mundo: Saramago”, la Jornada, Cidade do México, 11 de dezembro de 1998 (Reportagem de Pablo Espinosa).

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