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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Filosofando sobre a Morte
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA



Em um mundo de relações humanas tão esgarçadas, tão instáveis, tão superficiais... e, de repente, a morte permanece na condição que sempre lhe coube. Que começa por um respeito absoluto pela manutenção da individualidade humana.

Muitos morrem das mesmas causas; mas, não morrem da mesma maneira. Porque a morte é vivida e sentida de maneira singular tanto para quem parte quanto para quem fica. Daí, não ser possível massificá-la numericamente nas estatísticas.

Todo mundo já nasce sabendo que o fim é inevitável. Vivemos por um triz. Sem data certa para o apagar das luzes, o fechar das cortinas, o silêncio das palmas. Mas, quando chega a hora de partir nunca é fácil aceitar. Somos seres sociáveis, apesar das construções históricas que realizamos ao longo da vida e, nem sempre, permeadas de flores, de alegrias e de sucessos. Apenas coexistimos cotidiana ou esporadicamente ao longo dos dias.

Então, de repente, alguém sai de cena. Não importa se com ou sem aviso. O vazio preenche o espaço. Os abraços, os beijos, os sorrisos, as risadas, os choros, os afagos, as discussões, as rabugices... estão retidos, a partir daquele momento, na retina da alma, no centro das lembranças e memórias, nos campos da subjetividade. Tudo muito próprio, muito particular, muito privado.

A vida é alçada para fora da sua zona de conforto. Não há teorização no mundo que seja capaz de preparar o ser humano para a prática dessa experiência. Cada perda é única. Cada um é um. A morte dói independente de quem seja. Afinal, ninguém é um poço de virtudes e excelências durante a vida. Pessoas de carne e osso são falíveis, são difíceis, são contraditórias, são complexas,... são humanas.

Mas, ainda sim, somos rodeadas por milhares delas por vontade ou à revelia; de modo que estabelecemos relações breves, curtas, longas, positivas, negativas, enfim... “Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós; leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo” (Antoine de Saint-Exupéry). Por isso, as ausências são sentidas nos limites das suas singularidades.

De certo modo, a morte encolhe o mundo. Cada vez que isso acontece é necessário rearranjá-lo. Emoções e sentimentos precisam ser ressignificados. Quartos são desfeitos. Roupas e sapatos têm novos donos. Livros passam a pertencer a outros leitores. ... Mas, nada nem ninguém poderão substituir quem morreu. A verdade é que somos sim, insubstituíveis. A morte leva consigo mais do que a carcaça; leva a essência, a identidade, a marca que nos faz diferentes na nossa igualdade humana.

No entanto, esse é um processo que demanda tempo. Quanto? Cada um que responda por si. Tendo em vista a quantidade de mortes que acumulamos ao longo da vida. Às vezes mal se assimila uma e já chega outra para se somar ao sofrimento. O importante é entender que para cada uma delas sempre chega o dia em que, finalmente, a dor se transforma em saudade. E sentir a falta daquela pessoa é um modo de nutrir esperança de um reencontro, de externar as lembranças que acalentam a alma, dando-lhes certa materialidade.

Particularmente sinto-me privilegiada pelas saudades que trago comigo. Apesar de não ter podido me despedir de todos os que morreram, as lições dos tempos convividos são eternas e potencialmente motivadoras. Quase tudo memórias simples, triviais. Uma música. Um almoço. Um filme. Uma conversa de fim de tarde. Um baile. Um telefonema. Um aniversário. ... Certamente, tanto eu quanto elas não tínhamos a dimensão do quanto àqueles momentos se tornariam preciosos, impactantes e fundamentais na minha história.

Portanto, tudo isso é o que me permite entender com plenitude que “A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos...” (Pablo Picasso); enquanto permitimos criar obstáculos e desafios para impossibilitar o conviver, esfacelando as individualidades para firmar os individualismos.

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