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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Jornalismo
 
A industrialização das desgraças
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA



Infelizmente, algumas conjunturas caem no senso comum com alto grau de trivialismo e invisibilidade; mas, que no fundo estão longe desse superficialismo atribuído. Muitas são as mazelas com as quais uma expressiva parcela da sociedade brasileira é obrigada a conviver. Direitos sociais previstos constitucionalmente 1; embora, negligenciados de maneira subliminar ou direta, segundo interesses de práticas politiqueiras diversas. De modo que as soluções são postergadas ad aeternum, a fim de retroalimentarem a chama de uma credulidade travestida de esperança, a partir de promessas de campanha.
Não é à toa, então, que situações absurdas como a que acontece há quatro dias no Amapá tendem a se estender por mais 15. Um incêndio em uma subestação de energia elétrica comprometeu o fornecimento para aproximadamente 89% da população; ao todo cerca de 14 municípios. Nesse contexto, também foram prejudicados quanto ao abastecimento de água e serviços de comunicação. Considerando o panorama atual, com a presença de uma crise epidemiológica sem precedentes, a COVID-19, o fato ganha proporções ainda mais dramáticas.
Do ponto de vista da saúde pública serão muitos os prejuízos acumulados em decorrência desse apagão energético. Por mais elementar que seja a infraestrutura médico-hospitalar na região, a energia elétrica é essencial para garantir o funcionamento de estufas de esterilização, de respiradores, de aparelhos de monitoramento cardiorrespiratório, de bisturis elétricos, de bancos de sangue e hemoderivados, de salas de vacina, de medicamentos dependentes de refrigeração, enfim... Ainda que, eventualmente, alguns disponham de gerador de energia próprio, essa é uma solução paliativa e que não se sustenta por muito tempo.
O abastecimento de água, também, é outro ponto crucial. Sem eletricidade para mover as bombas de captação o serviço para. Em plena Pandemia, quando a higienização foi alçada ao patamar de prioridade absoluta no auxílio à contenção da disseminação viral, isso é imperdoável. E se ela é importante na esfera da saúde, na rotina populacional também; seja pela Pandemia seja pela dinâmica natural da sobrevivência. Pessoas cozinham, tomam banho, lavam roupa, limpam a casa,... e para todas essas funções a água é essencial.
E não bastassem esses aspectos... Segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação avançou 0,86% em outubro, pressionada especialmente pelos alimentos. Enquanto isso, mercearias, mercados e supermercados acumulam toneladas de alimentos sem a devida refrigeração e, por consequência, sendo descongelados abruptamente; bem como, donas de casa assistem seus esforços econômicos, para garantir a comida sobre a mesa, se esvaírem diante das geladeiras sem energia. Isso significa que a realidade socioeconômica brasileira não é nada aprazível para coexistir com situações como essa. O dinheiro anda pouco. O desemprego anda expressivo. As oportunidades andam escassas. O futuro é cada vez mais uma impossibilidade concreta.
Mas apesar de todos os pesares há reflexões importantes a se fazer. A dramaticidade dessas situações traz à tona a discussão sobre a diversificação da matriz energética brasileira e a implementação de políticas de apoio e investimento a esse setor. Já passou da hora de se beneficiar na prática da tropicalidade nacional. Há tempos deveríamos desfrutar de posição mais destacada em termos de utilização da energia eólica e da energia solar; para não nos entregarmos amiúde reféns da energia elétrica produzida por usinas hidro e termoelétricas.
É lamentável que essa questão ainda seja objeto de obstáculos produzidos pela desigualdade social; especialmente, no que tange a energia solar. A condição econômica do cidadão permanece como um fator determinante na acessibilidade a esse tipo de energia, não só por questões de conscientização e educação ambiental quanto por sua capacidade de investimento.
No entanto, se os gestores públicos compreendessem a dimensão intrínseca a essas matrizes energéticas para a consolidação de uma economia sustentável para o país, a situação atual poderia ser revertida. Afinal, os investimentos nesse setor promoveriam não só um melhor aproveitamento de recursos naturais disponíveis em profusão no país – sol e vento –; mas, também, promoveriam novas frentes de trabalho e geração de renda.
Seguindo a máxima do provérbio “fazer do limão uma limonada”, a questão energética no país pode representar um verdadeiro pontapé inicial para uma ruptura efetiva com a velha práxis da “industrialização das desgraças”. O mundo do século XXI é impaciente demais para esperar por ações. Chega das narrativas que se arrastaram nos séculos passados, porque elas já não se sustentam mais, não convencem mais e, nem tampouco, rendem votos como antigamente.


1 https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/518231/CF88_Livro_EC91_2016.pdf

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