A casa dos grandes pensadores
 
 
 

ROSELI BUSMAIR

 

 

 

 

Discurso para surdos, mudos e afins...

   Com mão erguida, eu procedo o gesto que permite interpretar a minha sinceridade, jurando que só falarei a verdade, nada mais que a verdade. Abro a boca e dela nada saí. Sou muda e a minha expressão ao falar, só se restringe à boca em movimento, pois dela não me saí nenhum som. 

Sou cega, pois não vejo nada além do meu próprio olhar e acredito somente na minha percepção, no meu tato, no meu paladar. A minha realidade foge aos padrões normais: cega eu não posso ver; muda eu não posso falar e como todos os demais estão surdos, nenhum de nós consegue ouvir.

Enquanto falei não fui ouvida. Enquanto ouvi, não consegui escutar e quando tentei me expressar, não houve reciprocidade. Então, humildemente, me calei para sempre.

O meu interior, no entanto é um mundo de infinitos dons. No inconsciente estão armazenadas todas as impressões do mundo exterior e como tal, se refletem nos meus discursos mudos. 

O meu consciente é um vasto campo minado, onde milhões de neurônios, em explosões contínuas, abrem-se às cortinas do saber, amontoando um sem número de troféus, agora expostos para um sem número de expectadores - pessoas assaz inteligentes - que as visualizam, mas não conseguem entendê-las. 

Sou lúcida e sensata. Entre nós entretanto, pairam o desentendimento sobre as coisas mais simples e outras, lúdicas. Sou um amontoado de emoções, as quais transpiro já sem fôlego, para respingá-las de pura água cristalina, com a qual costumo arejar-me nos dias mais quentes. 

Já nos frios dias do inverno, bem mais constantes na minha jornada solitária, exprimo-me aos ermos dos tempos da minha existência, enquanto Ser. Aí não mais importa se eu sou muda ou cega. Se eu sou forte ou fraca. Se eu sou madura ou imatura. 

Nesse entrelaçar recôndito entre a Alma e a carne, somos todos um e um por todos. Uso então da minha primeira qualidade e última descoberta, para transmitir ao mundo o que me vai n'Alma – através do pensamento telepático - consigo apaziguar o meu próprio Eu e, inspirada em imaginação,  para dizer tudo - nada mais dizendo... 

Assim se comunicam os que não conseguem ser ouvidos, nem ver e nem ouvir – telepaticamente. Este é o dom maior, recíproco e contínuo, visando a sabedoria coletiva, agregada aos nossos valores individuais intrínsecos. 

O dom divino e supremo de sermos Nós mesmos, enquanto que expressivo número de seres normais, não mais conseguem entender-se entre si; quanto menos interpretar o seu próprio Eu interior. 

Em terra de cegos, quem tem um olho é rei... serei rainha !?

Curitiba_PR_Agosto_2002.

Roseli Busmair

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 24/02/2005